O quão masoquista ou estúpido é continuar numa
história que só faz doer, só porque se não fosse amor, você,
supostamente, já teria desistido? Será que amor é isso? Tudo que eu sei é
que me transformei numa vampira de mim mesma e todo esse sangue
que ele faz escorrer todos os dias. Vez ou outra tento me alimentar de
fruta, uma coisa mais leve, mas ele me faz um corte sutil e eu não posso
evitar a recaída. O quão doentio é estranhar a felicidade? E afastar,
num reflexo, esses caras bem resolvidos e aptos a um relacionamento
saudável. Porque minha saúde é como de uma dependente química, talvez
pior. Porque ninguém vê meu estado se agravando, ninguém corre pra me
ajudar. Ninguém me interna e eu não tenho força de vontade pra me curar
só. Rejeito a cura junto com as flores, as mensagens de bom dia e essas
paixões sufocantes. Já até me corto sozinha e ninguém desconfia. Não
pense, precipitada e equivocadamente, que não sou feliz ou sou uma
dessas apáticas se arrastando por aí. Não grito minha dor, porque talvez
eu até goste ou só tenha me acostumado. Tô sempre sorrindo e não é
atuação. Tô bem assim. Só não tenta limpar todo o sangue e dividir meu
peso, minha loucura. Não vem achando que tem a minha solução, como se eu
fosse um problema. Não tenta me arrumar, porque a bagunça sou eu, você
só pode aceitar ou não. Eu sozinha sou ótima, juro. Sem obrigações,
cobranças, imposições, reajustes. Não quero me mudar ou reabilitar. Sei
lidar com a minha felicidade e tristeza, cada minuto, cada alto e baixo,
sem querer salvar meu mundo fazendo um curativo barato. Porque meu
mundo, presta atenção, não tá a perigo. Ele é isso e eu tô ótima,
reforço. Se você prefere água parada, prateleira organizada, você troca
de mundo, não tenta acalmar o meu. Tô bem sozinha, sou melhor só minha.
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